sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O GUIA FINAL DAS PONTES

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      Sejam bem-vindos ao mundo das minhas pontes. Isto não é uma aula de engenharia civil, é um inventário de sobrevivência.
1. A Ponte Primitiva (Nível de Perigo: Elevado)
      Tudo começou com duas tábuas grossas jogadas em cima de uma ribeira. Não havia corrimão, não havia controlo de qualidade, apenas duas tábuas e muita fé em Deus. Sobrevivi.
2. A Ilusão Escolar (Nível de Perigo: Secas Literárias)
      Depois vieram os livros de geografia. Descobri que todas as capitais da Europa tinham pontes sobre rios (uns mais largos, outros com menos caudal, mas todos com muita estátua e pombos). Pelo mundo fora, as pontes nasciam como cogumelos — sem ninguém as semear, lá aparecia mais betão armado.
3. A Fase "Sobre Tudo e Mais um Par de Botas"
      Nas viagens de comboio, o cenário era sempre o mesmo: olhavas pela janela e lá estava uma ponte. Pontes sobre rios, pontes sobre estradas, pontes sobre... outras pontes. Pontes sobre tudo e mais um par de botas. Uma autêntica obsessão ferroviária.
4. O Mundo do Trabalho (As Minhas Favoritas)
      Aí sim, a engenharia civil atingiu o seu pico de utilidade pública. Conheci:
  • As Pontes de Calendário: Aquelas maravilhosas pontes que unem cirurgicamente o feriado ao fim de semana. O maior invento da humanidade depois da roda.
  • As Pontes Subaquáticas: Aquelas que a malta constrói com boa intenção, mas que ficam logo alagadas na primeira cheia do inverno.
  • As Autoestradas de Ilusões: Onde as estradas viravam pontes e as pontes viravam autoestradas, num nós cego de trânsito e portagens.
5. As Pontes Invisíveis (E as que dão Choque)
      Alargando o conceito, percebi que os cabos de alta tensão no céu são estradas invisíveis que distribuem eletricidade (e conversas sem fim) por todo o lado. E depois, claro, as pontes humanas: as relações entre amigos e colegas de trabalho. Algumas aguentam toneladas de peso; outras caem se alguém tirar o último café da máquina.
O Diagnóstico Atual: O Mundo Ficou Pequeno
      O problema é que o mundo encolheu. Ficou tão pequeno e previsível que parece que as pontes já foram todas construídas. Perdeu-se a surpresa.
      Hoje em dia, jogamos ao Minecraft da vida real: cada um de nós cria e destrói pontes diariamente. À segunda-feira queimamos a ponte com o chefe; à terça-feira reconstruímo-la com um sorriso amarelo e voltamos a admirar este mundo que, sendo cada vez mais imperfeito, ainda se vai aguentando de pé.
Nota de Autor (Ao som de ABBA)
Escrevo isto enquanto oiço Dancing Queen (ou talvez Waterloo, para combinar com o tema das cheias). Cada nota, cada acorde e cada rasgo de criatividade nasceu disto: pontes entre pessoas, viagens e muita música no olhar de quem sabe amar os outros. Sem ligações, a pauta era só uma folha em branco com linhas.
Uma ponte é uma obra de arte. Constrói muitas (mas evita as de duas tábuas podres).
Abraço!

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

REGRESSO EM TEMPO DE VERÃO

 


Olá, minha terra querida,
Olá, minha serra e amigos!
Voltei a esta bela vila,
P’ra reviver tempos queridos.
O fim de semana promete,
Há festa no velho coreto!
O som do piano derrete
O aroma do porco no espeto.
À sombra das tílias folhudas,
O dia sorri solarengo,
Esquecem-se as dores antigas
Aqui é doce cada momento.
Na tarde de muito calor,
Bancas de doces de antes
Despertam promessas de amor
Em inocentes amantes.
E sobre o terreiro esquecido,
Onde o tempo parece parar,
O mundo renasce cupido
Na magia de um breve olhar.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

ECOS DE UM TEMPO ESPECIAL

 


    Nestas ruas aprendi a andar, dando os meus primeiros passos rumo a um mundo que me parecia infinito. Foi precisamente aqui que vivi uma infância plena, preenchida por gargalhadas sem preocupações, joelhos esfolados e brincadeiras que se estendiam até ao pôr do sol. Olhando para trás, percebo com clareza que aqui foi talhado o meu destino, moldado pelas vivências e pelos valores gravados em cada esquina desta terra.

    Neste cenário de tantas memórias, tanto sonhei, sonhei e amei. O meu coração guardou os segredos da juventude e os primeiros afetos que me definiram. No entanto, o tempo seguiu o seu curso implacável. Penso em vós, meus queridos amigos, com uma nostalgia profunda que me aperta o peito; eu vos perdi para as voltas que a vida dá e para os caminhos distintos que cada um escolheu seguir.

    Apesar da ausência de quem partiu e das inevitáveis mudanças físicas do lugar, o meu vínculo com este espaço permanece inabalável. Quando aqui volto chego firme, despido de medos ou hesitações, pronto para abraçar o meu passado. A cada nova visita, sinto o chão familiar sob os meus pés e sempre revivo cada momento que aqui vivi, mantendo a minha própria história eternamente viva.

domingo, 24 de maio de 2026

NUM DIA QUALQUER

    


Imagem da net

 O dia acorda na aldeia com o compasso vagaroso de quem não conhece a pressa. 

     Pela janela da minha velha casa de pedra, espreito a vida a ementar-se nas ruelas de sempre, num quotidiano que repete a sua beleza simples todas as alvoradas. 

     Dali do esconso da esquina, já oiço o bater compassado do martelo do sapateiro contra o cabedal, focado no seu tanchão enquanto remenda os sapatos de quem gasta a vida a calcorrear os caminhos. Pouco depois, diviso o lenhador a passar pela Quelha com a sua grande serra traçada ao ombro, caminhando com passo firme em direção aos pinhos e fragas altas que cobrem a serra. 

     Os meus olhos descem então para o chão e reparam, como sempre, nos calhaus desencontrados e gastos da calçada, que parecem rejeitar o alinhamento para contar histórias de eras de passagens. É por entre esse pendoado irregular que avança o burro, puxando a sua velha carroça de madeira sem nenhuma lida, num passo tão tardo que parece embalar o próprio tempo do nosso lugar. 

     Diante de tudo isto, decido ir para o adro e fico ali, de braços abertos, a formatar cada um destes momentos, deixando que a quietude da Beira me encha a alma por completo. Fecho os olhos por um instante e o bafo do vento traz-me o aroma doce das rosmaninhos e giestas que medram nos valados, misturado com o cheiro a terra nédia da manhã. 

     Logo a seguir, esmorecendo o silêncio de forma suave, chega-me o ecoar longínquo do apito de um comboio que passa além da catraia, lembrando-me de que o mundo lá fora continua em desassossego, enquanto aqui a vida escolheu deitar raízes. Dou um último suspiro fundo, dou a volta e recolho finalmente à lareira, pronto para atiçar o lume e alinhavar, também eu, o meu próprio dia.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O SAPATEIRO DA MINHA RUA



Bate o martelo na loja escura,
Onde a luz da janela quase não dura.
Nesse canto velho de poeira e tradição,
O mestre trabalha com o coração.

Mãos sábias deitam meias solas com amor,
Dando aos sapatos um novo vigor.
O forte cheiro a couro e cola no ar,
Faz o tempo antigo ali parar.

Passos cansados voltam a brilhar,
Como sapatos novos prontos a estrear.
O homem sorri no seu humilde lugar,
Orgulhoso da arte que sabe preservar.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A HISTÓRIA DO GALO GALIMEDES


O dia começa com o primeiro avião, ali pelas 6.20. Quem tem o sono leve já não volta a dormir. Assim acontecia com o galo da quinta, o Ganimedes. Ainda no poleiro, batia suavemente as asas, esticava as duas patas, sacudia a poeira que tinha caído durante a noite e suavemente dizia na língua dos galos e das galinhas, está na hora, o sol não tarda, vai nascer.

As duas galinhas acordaram e, sentindo o papo vazio, abriram os olhos e cantaram ao mesmo tempo: vamos a isso!

Desceram do poleiro com todo o cuidado, respiraram o ar puro da manhã e aproximaram-se do buraco que havia na parte de baixo da porta. O galo não gostava que aquele buraco ficasse aberto mas o que era certo é que dava jeito para a primeira saída da manhã.

O galo olhou para o céu e disse: só faltam dez minutos para as sete, vamos lá. E, em leves passos mas com muita determinação puseram-se a caminho.

Onde vai este trio? Quem sai assim tão cedo para desafiar o clima e a escuridão? Podem-me ajudar? Qual o destino destes três animais destemidos? Aceito as vossas sugestões.

Agradeço os vossos palpites.

Uma hora depois aí estão eles a atravessar a rua. O Galimedes na frente, de cabeça levantada, dominando e protegendo as galinhas, fazendo, os três, a travessia da rua, em fila indiana.  Enquanto o Galimedes levantava as asas à esquerda e à direita para que todo o trânsito parasse, os condutores primeiro acham graça, depois abraçam-se ao volante começando a ferver e, por fim, colocam a cabeça fora da janela e gritam, mas os três viajantes não se deixam perturbar, são educados não respondem a provocações. Lentamente, vão andando pela estrada, o galo responde aos condutores com ruídos que ninguém percebe e as duas galinhas vão comendo pedrinhas pequeninas para que mais tarde o ovo seja uma verdadeira obra da natureza, muito rijo e branquinho. Chegam ao passeio frescos e satisfeitos por mais um grande feito. E agora, qual é o destino? Irão ver os bombeiros? Ir apanhar o comboio à estação? Tomar o pequeno almoço no café que fica em frente ou ... Qual a vossa opinião?

Talvez um dia vos conte aquilo que vi ... Até lá!

domingo, 30 de novembro de 2025

LIXO NAS PARAGENS? NÃO FAZ MAL ...

Na minha rua acontece de tudo. Agora uma porta andou uns metros, atravessou a rua e foi sentar-se no banco de uma paragem de autocarro. E os dias passam  e os autocarros também.

Se alguém estiver interessado em agir a favor da porta … esta, construída em madeira reciclada, boas medidas, lacada em branco de um lado e envernizada do outro vai esperando que alguém se lembre do seu 1,90 X 0,90 m.

Quem se encontrar com um pulso ligado não venha cá, pois o peso da dita é … uma carrada de quilogramas.

O GUIA FINAL DAS PONTES

Imagem da net       Sejam bem-vindos ao mundo das minhas pontes. Isto não é uma aula de engenharia civil, é um inventário de sobrevivência....