domingo, 24 de maio de 2026

NUM DIA QUALQUER

    


Imagem da net

 O dia acorda na aldeia com o compasso vagaroso de quem não conhece a pressa. 

     Pela janela da minha velha casa de pedra, espreito a vida a ementar-se nas ruelas de sempre, num quotidiano que repete a sua beleza simples todas as alvoradas. 

     Dali do esconso da esquina, já oiço o bater compassado do martelo do sapateiro contra o cabedal, focado no seu tanchão enquanto remenda os sapatos de quem gasta a vida a calcorrear os caminhos. Pouco depois, diviso o lenhador a passar pela Quelha com a sua grande serra traçada ao ombro, caminhando com passo firme em direção aos pinhos e fragas altas que cobrem a serra. 

     Os meus olhos descem então para o chão e reparam, como sempre, nos calhaus desencontrados e gastos da calçada, que parecem rejeitar o alinhamento para contar histórias de eras de passagens. É por entre esse pendoado irregular que avança o burro, puxando a sua velha carroça de madeira sem nenhuma lida, num passo tão tardo que parece embalar o próprio tempo do nosso lugar. 

     Diante de tudo isto, decido ir para o adro e fico ali, de braços abertos, a formatar cada um destes momentos, deixando que a quietude da Beira me encha a alma por completo. Fecho os olhos por um instante e o bafo do vento traz-me o aroma doce das rosmaninhos e giestas que medram nos valados, misturado com o cheiro a terra nédia da manhã. 

     Logo a seguir, esmorecendo o silêncio de forma suave, chega-me o ecoar longínquo do apito de um comboio que passa além da catraia, lembrando-me de que o mundo lá fora continua em desassossego, enquanto aqui a vida escolheu deitar raízes. Dou um último suspiro fundo, dou a volta e recolho finalmente à lareira, pronto para atiçar o lume e alinhavar, também eu, o meu próprio dia.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O SAPATEIRO DA MINHA RUA



Bate o martelo na loja escura,
Onde a luz da janela quase não dura.
Nesse canto velho de poeira e tradição,
O mestre trabalha com o coração.

Mãos sábias deitam meias solas com amor,
Dando aos sapatos um novo vigor.
O forte cheiro a couro e cola no ar,
Faz o tempo antigo ali parar.

Passos cansados voltam a brilhar,
Como sapatos novos prontos a estrear.
O homem sorri no seu humilde lugar,
Orgulhoso da arte que sabe preservar.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A HISTÓRIA DO GALO GALIMEDES


O dia começa com o primeiro avião, ali pelas 6.20. Quem tem o sono leve já não volta a dormir. Assim acontecia com o galo da quinta, o Ganimedes. Ainda no poleiro, batia suavemente as asas, esticava as duas patas, sacudia a poeira que tinha caído durante a noite e suavemente dizia na língua dos galos e das galinhas, está na hora, o sol não tarda, vai nascer.

As duas galinhas acordaram e, sentindo o papo vazio, abriram os olhos e cantaram ao mesmo tempo: vamos a isso!

Desceram do poleiro com todo o cuidado, respiraram o ar puro da manhã e aproximaram-se do buraco que havia na parte de baixo da porta. O galo não gostava que aquele buraco ficasse aberto mas o que era certo é que dava jeito para a primeira saída da manhã.

O galo olhou para o céu e disse: só faltam dez minutos para as sete, vamos lá. E, em leves passos mas com muita determinação puseram-se a caminho.

Onde vai este trio? Quem sai assim tão cedo para desafiar o clima e a escuridão? Podem-me ajudar? Qual o destino destes três animais destemidos? Aceito as vossas sugestões.

Agradeço os vossos palpites.

Uma hora depois aí estão eles a atravessar a rua. O Galimedes na frente, de cabeça levantada, dominando e protegendo as galinhas, fazendo, os três, a travessia da rua, em fila indiana.  Enquanto o Galimedes levantava as asas à esquerda e à direita para que todo o trânsito parasse, os condutores primeiro acham graça, depois abraçam-se ao volante começando a ferver e, por fim, colocam a cabeça fora da janela e gritam, mas os três viajantes não se deixam perturbar, são educados não respondem a provocações. Lentamente, vão andando pela estrada, o galo responde aos condutores com ruídos que ninguém percebe e as duas galinhas vão comendo pedrinhas pequeninas para que mais tarde o ovo seja uma verdadeira obra da natureza, muito rijo e branquinho. Chegam ao passeio frescos e satisfeitos por mais um grande feito. E agora, qual é o destino? Irão ver os bombeiros? Ir apanhar o comboio à estação? Tomar o pequeno almoço no café que fica em frente ou ... Qual a vossa opinião?

Talvez um dia vos conte aquilo que vi ... Até lá!

NUM DIA QUALQUER

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