O dia acorda na aldeia com o compasso vagaroso de quem não conhece a pressa.
Pela janela da minha velha casa de pedra, espreito a vida a ementar-se nas ruelas de sempre, num quotidiano que repete a sua beleza simples todas as alvoradas.
Dali do esconso da esquina, já oiço o bater compassado do martelo do sapateiro contra o cabedal, focado no seu tanchão enquanto remenda os sapatos de quem gasta a vida a calcorrear os caminhos. Pouco depois, diviso o lenhador a passar pela Quelha com a sua grande serra traçada ao ombro, caminhando com passo firme em direção aos pinhos e fragas altas que cobrem a serra.
Os meus olhos descem então para o chão e reparam, como sempre, nos calhaus desencontrados e gastos da calçada, que parecem rejeitar o alinhamento para contar histórias de eras de passagens. É por entre esse pendoado irregular que avança o burro, puxando a sua velha carroça de madeira sem nenhuma lida, num passo tão tardo que parece embalar o próprio tempo do nosso lugar.
Diante de tudo isto, decido ir para o adro e fico ali, de braços abertos, a formatar cada um destes momentos, deixando que a quietude da Beira me encha a alma por completo. Fecho os olhos por um instante e o bafo do vento traz-me o aroma doce das rosmaninhos e giestas que medram nos valados, misturado com o cheiro a terra nédia da manhã.
Logo a seguir, esmorecendo o silêncio de forma suave, chega-me o ecoar longínquo do apito de um comboio que passa além da catraia, lembrando-me de que o mundo lá fora continua em desassossego, enquanto aqui a vida escolheu deitar raízes. Dou um último suspiro fundo, dou a volta e recolho finalmente à lareira, pronto para atiçar o lume e alinhavar, também eu, o meu próprio dia.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.